Mais de 4 mil peregrinos participam de romaria em Ribeirão Cascalheira

Cerca de 4 mil peregrinos participaram da 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, realizada nos dias 18 e 19 de julho no Santuário dos Mártires da Caminhada, em Ribeirão Cascalheira (MT), na prelazia de São Félix do Araguaia. Com vigília, rodas de conversa, caminhada e missa, o encontro homenageou religiosos, indígenas, sindicalistas, ambientalistas e ativistas políticos considerados “mártires” pela organização do evento.

A carta de convocação da romaria diz que o encontro conserva a memória daqueles que morreram pelas chamadas “Causas do Reino”, como a Casa Comum e a ecologia integral, os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, as juventudes, as mulheres, a população em situação de rua, a população LGBT+ e os defensores dos direitos humanos.

Em artigo publicado antes do evento, o padre Francisco de Aquino Júnior, da diocese de Limoeiro do Norte (CE), defendeu “repensar e alargar a compreensão de martírio na Igreja”.

Segundo ele, os chamados mártires latino-americanos não teriam sido mortos diretamente por ódio à fé, mas por ódio às “exigências ou consequências da fé”. O sacerdote diz que a memória dessas pessoas ocupa um lugar importante nos setores eclesiais ligados às “lutas e organizações populares” e não pode ser separada das atuais “lutas por libertação”.

O bispo de São Félix do Araguaia, Lucio Nicoletto rezou a missa vestindo uma estola vermelha com os nomes dos “mártires” escritos nela. O bispo de Imperatriz (MA), dom Vilson Basso, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasi (CNBB) também participou.

O bispo de São Félix do Araguaia, Lúcio Nicoletto, veste estola com os nomes dos mártires. Crédito: Facebook Irmandade dos Mártires da Caminhada

Realizada a cada cinco anos, a romaria teve a participação de leigos, religiosos, padres, diáconos, bispos, povos indígenas, comunidades tradicionais, comunidades eclesiais de base, pastorais sociais e integrantes de movimentos populares de diferentes regiões do Brasil.

Com o tema “Testemunhas da Esperança”, a edição deste ano celebrou 50 anos da morte do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier e dos servos de Deus padre salesiano Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo, indígena do povo Bororo, mortos em 1976.

A Irmandade dos Mártires da Caminhada

A Irmandade dos Mártires da Caminhada, que organizou a romaria, foi criada em 2001, quando foram celebrados os 25 anos da morte de Burnier.

Segundo seu site, a irmandade é uma “comunhão de afeto e de compromisso entre todas as companheiras e os companheiros que comungam da memória de nossos mártires e das causas de seus martírios”. Um dos objetivos é “manter viva a memória de tantos Mártires da América Latina e Caribe, sacrificados particularmente ao longo destas décadas de ditaduras militares e das políticas neo-liberais de exclusão e de marginalização social”.

Padre Burnier

Burnier foi baleado por um policial militar em 11 de outubro de 1976, em Ribeirão Bonito, atual Ribeirão Cascalheira. Ele e dom Pedro Casaldáliga, então bispo-prelado de São Félix do Araguaia e um dos principais representantes da Teologia da Libertação na hierarquia da Igreja no Brasil, tentavam ajudar Margarida e Santana, duas mulheres torturadas por policiais na cadeia local.

O jesuíta recebeu uma coronhada e foi atingido por um tiro. Gravemente ferido, foi levado para Goiânia (GO), onde morreu no dia seguinte, festa de Nossa Senhora Aparecida.

No lugar onde funcionava a cadeia-delegacia foi construída inicialmente uma capela e, depois, o Santuário dos Mártires da Caminhada. O local conserva a memória de Burnier e de outras pessoas mortas em conflitos relacionados à terra, aos povos indígenas, ao meio ambiente, aos direitos humanos e a movimentos sociais no Brasil e em outros países da América Latina.

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