Pragmatismo pelo poder deve unir rivais históricos em Mato Grosso

As articulações políticas para as eleições gerais de 2026 em Mato Grosso estão se consolidando para o velho pragmatismo político brasileiro, ou o popular chavão “vale-tudo pelo poder”. Antigos rivais históricos, que já trocaram acusações graves de corrupção, traição e incompetência administrativa na televisão e nas tribunas, agora desenham alianças estratégicas e admitem dividir os mesmos palanques.  

Impulsionados pelas articulações das direções nacionais e frentes regionais, nomes tradicionais da política mato-grossense superam as mágoas do passado de olho no governo do Estado e nas duas vagas abertas ao Senado Federal.  

O redesenho eleitoral mais emblemático envolve o senador Carlos Fávaro (PSD) e o ex-governador Pedro Taques (PSB). Fávaro foi eleito vice-governador na chapa de Taques em 2014, mas protagonizou um rompimento dramático em abril de 2018 ao renunciar ao cargo.  

Na época, Fávaro acusou a gestão de Taques de “falta de rumo” e de “isolar os aliados”, ajudando a sepultar a tentativa de reeleição dele pelo PSDB, que saiu derrotado e isolado.  

Atualmente, o cenário nacional inverteu as polaridades. Com a articulação do Palácio do Planalto para fortalecer uma frente ampla de centro-esquerda em Mato Grosso, Taques e Fávaro começam a orbitar no mesmo espaço eleitoral. As antigas divergências dão lugar à necessidade de palanque comum. O deputado estadual Lúdio Cabral (PT) chegou a destacar o amadurecimento de Taques na busca por se reposicionar no atual cenário de oposição ao atual governo estadual.   

Cotoveladas no PL   

Dentro da ala da direita e bolsonarista, o Partido Liberal (PL) abriga uma das convivências mais tensionadas do estado: o senador Wellington Fagundes (PL), que é pré-candidato ao governo, e o deputado federal José Medeiros (PL). A rivalidade é antiga.  

Em 2010, caminhavam em trincheiras completamente opostas, com Medeiros como suplente de Pedro Taques na disputa ao Senado, com forte discurso moralista, enquanto Wellington sustentava a base governista do ex-governador Silval Barbosa, amplamente criticada por Medeiros.  

A temperatura subiu nos bastidores do PL, com registros de que o grupo de Medeiros tentou internamente barrar ou desidratar os planos majoritários de Fagundes para o Executivo estadual, sob a alegação de que Wellington possuía um perfil “fisiológico demais” para a nova direita. Apesar das rusgas, o fechamento das chapas impôs o cessar-fogo. “O PL tem um projeto claro para Mato Grosso”, garantiu Fagundes em coletiva à imprensa, empurrando as divergências para debaixo do tapete enquanto divide santinhos ao lado de Medeiros.   

Disputa na capital   

Na capital, a eleição de 2026 promove a reaproximação de três figuras que protagonizaram os maiores embates municipais do século. Wilson Santos (PSD), que em 2012 e 2016 atuou como um trator de oposição de centro-direita nos bastidores e debates, deverá partilhar palanque com o deputado Lúdio Cabral (PT).  

Wilson e Lúdio foram rivais históricos na capital. Enquanto o primeiro era prefeito, Lúdio foi o líder da oposição na Câmara de Cuiabá. Porém, recentemente, a atuação conjunta na Assembleia Legislativa (ALMT) e o posicionamento crítico em relação ao Palácio Paiaguás atenuaram o atrito entre eles. Agora, com o PSD de Fávaro liderando o palanque do presidente Lula (PT) no Estado, ambos estarão juntos na disputa de outubro.

Ainda mais “curiosa’ é a acomodação em relação a Emanuel Pinheiro (PSD) e Wilson Santos. O segundo turno de 2016 entre os dois na disputa pela prefeitura de Cuiabá foi marcado por ataques pessoais agressivos, acusações de corrupção familiar e processos judiciais imediatos. Hoje, no entanto, as costuras de frentes partidárias amplas forçam o afunilamento, unindo grupos que antes se prometiam distância perpétua.   

Janaina, Mauro Mendes e Lucas do Rio Verde   

No bloco governista, a possibilidade de manutenção de Janaina Riva (MDB) e do governador Mauro Mendes (União) no mesmo palanque passa diretamente pela confirmação de apoio ao nome de Otaviano Pivetta (Republicanos) para a sucessão estadual.  

Janaina, que é pré-candidata ao Senado, despontou na política como a maior oposicionista do então governador Pedro Taques no Legislativo entre 2015 e 2018. Já no segundo mandato, passou a ser aliada do então governador Mauro Mendes. Porém, a partir de 2023, começou a ser tratada como adversária por sua intenção de disputar o Senado, mesmo cargo que Mendes almeja neste ano.  

Depois disso, foi encarada como “oposição raivosa e herança política” (em referência ao pai, José Riva). Agora, caso o MDB seja acomodado no palanque de Pivetta, os dois deverão esquecer as desavenças e caminharem de mãos dadas.    

Paralelamente, a consolidação desse palanque pode forçar a pacificação entre Otaviano Pivetta e o ex-deputado federal Neri Geller (Pode). Donos de uma rivalidade sangrenta no coração do agronegócio, em Lucas do Rio Verde (354 km ao norte de Cuiabá), Pivetta e Geller dividiram o setor produtivo em 2022 em uma guerra de declarações públicas pesadas.  

Caso o Podemos decida marchar com o projeto governista, os dois caciques do agro terão de engolir o orgulho regional e coordenar as bases no mesmo comitê central.  

Os palanques de 2026 em Mato Grosso provarão que o rancor na política tem prazo de validade: dura exatamente até a abertura da próxima janela partidária.

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